
Há pouco me aproximei de Tia Ida. De fato, gosta de prosear, mas sem maldades. Ou, se quiser, com as maldades necessárias para uma boa proza. Uma mulher mais pronta para a vida. Sabedora das suas dificuldades, mas reconhecendo sobre tudo seu desejo de viver, possui aos 80 uma disposição invejável. Seu marido deixou-lhe um violino - já a conheci viuva - e essa nota musical sempre reverberou em sua casa, possivelmente representando um homem que também amava a vida.
Seguramente ela o amava muito. Percebesse em tudo. Do modo que dele fala ao olhar de saudades e também por estar de acordo com seu temperamento. Se a comparássemos à minha mãe e Tia Berta poderíamos falar de três cheiros muito distintos. Minha mãe, sem duvida, algo picante, Tia Berta uma alfazema, delicada e tranqüila, Tia Ida algo excitante, uma almiscar.
Talvez não fosse a mais bela das irmãs, mas isso não a impede de manter uma atitude cuidadosamente vaidosa. Parece ter conhecido o amor. Um prêmio. Não para se expor e branir mas para guardar consigo. Nas desconversas que vejo entre tantas vozes altas sinto de sua parte um silêncio sabedor do proveito colhido.
O que pode-se querer mais da velhice que a vitalidade?
Certo dia estava na casa de minha mãe com as duas e resolvi puxar o assunto dos meus avós. Mais uma vez estava provado que construímos pessoas dentro de nós, pois se dependesse da descrição de ambas teríamos retratos tão distintos que poderíamos jurar tratar-se de seres absolutamente antagônicos. Acabaram brigando e fiquei novamente com a certeza de ser da ordem do impossível fazer um retrato verdadeiro de alguém.
Existem verdades que nascem dentro de nós e que podem estar absolutamente equivocadas. Algumas nos fazem muito bem, outras nos fazem muito mal.
Para sofrermos menos e gozarmos mais podemos ao menos lembrar que são imagens e não verdades. Ou então pensarmos sobre como nos movemos por imagens.
Depois da briga, não haviam passado três minutos, estavam tomando café na cozinha, juntinhas.
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