segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

UM FALSO GIORGI e uma falsa arte brasileira em progressão

* Imagens no fim da postagem

A história merece uma introdução. A peça a qual me refiro pertence a uma família com potencial a se tornar colecionadora de obras de arte, uma vez que um dos lados, o da mãe, vem de família que coleciona. Ou seja, não são pessoas absolutamente inocentes quanto ao mercado de arte.
Certa feita, foram os recém casados a um leilão “idôneo”, me afirmam, e lá arremataram por uma cifra razoável, pouco mais que uma oportunidade, um Bruno Giorgi.
A partir de então esta obra ficou, tranquilamente, vivendo seus dias de sol e orgulho nos jardins da casa, até o momento de ser colocada em xeque. Houveram inicialmente alguns protestos, mas infelizmente as evidencias levam a crer que a obra, antes reverenciada como um exemplar de um dos maiores escultores brasileiros, seja uma fraude.
Não creio que seja difícil prová-lo, as imagens parecem depor mais do que as palavras. Porém, mesmo assim, vamos a elas.
Em primeiro lugar o estilo. É fácil ver que apesar de Giorgi ter usado algumas vezes poses similares – sua aluna Sonia Ebling o fez muito mais - o modo como a forma é tratada está longe de ter a sutileza que marcou a carreira do escultor. Mesmo nas suas mais ousadas estilizações, Bruno Giorgi nunca abandonou a formação que adquiriu ao lado de, nada mais nada menos, Aristides Maillol. Essa marca, ou melhor, essa sensibilidade elaborada e particular em relação a forma é, de fato, sua assinatura e o que, por fim, mais emociona.
A segunda prova estaria nos detalhes, fisionomia, mãos, barriga, mesmo umbigo.  Nenhumas dessas partes trazem características do autor, seja no sentido geral ou na execução e acabamento.
Comecemos pela cabeça. Se os olhos tentam imitar o estilo gráfico muitas vezes aplicado pelo mestre, a boca e nariz denunciam claramente a inexperiência do pseudo-escultor, uma tentativa banal de reproduzir o beiço e narinas de modo acadêmico. A própria fisionomia em nada lembra a mestiçagem imaginária Giorgiana tão carregada de tons indígenas e sutilezas de modelagem. A barriga não possui graça, ou mesmo não existe, sendo apenas marcada por um buraco que, em Giorgi, quando evocado, aparece sempre com os cuidados necessários para que pertença ao corpo, ou ainda, para que traga para si a atenção desejada, pois deve haver nele, o precioso umbigo, também algo de poético. Por fim as mãos, e a partir delas partimos para outro quesito não menos importante. Não sabemos exatamente a quem creditar tal barbeiragem, se ao autor, seja ele quem for, ou a fundição ou fundidor.
Existem sobre isso várias suposições. Por exemplo: a obra seria falsa de cabo a rabo, ou seja, modelada de má fé e fundida com fé ainda mais rasa. Percebe-se a má qualidade da fundição e talvez seja ela responsável por tornar algo que era sofrível em vergonhoso ou, acredito menos nessa hipótese, seria então uma obra original mal fundida. Talvez surja por ai a versão verdadeira e isso ajudaria muito a esclarecer nossa história. Por enquanto podemos afirmar apenas e seguramente que se trata de uma péssima reprodução. Pode-se concluir isso por três razões básicas. 1 - Os acabamentos dos dedos, sejam dos pés ou das mãos, são caracteristicamente conseqüência do retoque da cera. Quem trabalhou esses últimos 30 anos pelas fundições brasileiras reconhece facilmente esse, vamos chamar assim, caráter. 2 - A qualidade da fusão apresenta problemas de porosidades de diversas ordens, um fato recente que Giorgi não conheceu em vida, que poderia ser atribuída também a reproduções póstumas e legítimas - entraremos dessa questão mais adiante. Por enquanto basta saber que as irregularidades da superfície da obra causada por fervuras, inclusões e outros defeitos de fundição são inimigos da obra de arte, acabando por destruir a superfície da peça sem deixar rastro das mãos do autor. Em nosso caso uma parte desses problemas foram disfarçados com trabalhos com máquinas de abrasamento facilmente identificáveis. 3 - Por fim o metal, apesar de não ter realizado nenhuma análise metalográfica, creio poder afirmar que se trata de um latão bastante irregular. Ser latão não é exatamente o problema, há muito se trabalha com ligas com menos cobre e nem por isso se produziram obras de menor valor, mas neste caso o aspecto do metal causa péssima impressão.
Acreditando-se que o fundidor não estava em conúbio com um possível falsário, pode-se concluir simplesmente que este não possuía competência para reprodução da criação do autor, seja ele Giorgi ou não.
Porém, uma vez que a qualidade da fundição sabe-se, é menos culpa do fundidor brasileiro que de uma conjuntura de depreciação geral dos saberes artesanais ligados as Artes, antes chamadas Plásticas, agora Visuais e muito antes Belas Artes, pulo para a questão seguinte e que, me parece, é a mais intrigante. Como é possível que se vendam peças como esta?  - o que se faz com mais freqüência do que se imagina - e misteriosamente, como é possível que se comprem peças assim? A resposta para a segunda pergunta não é tão difícil. Onde não há informação as pessoas são facilmente enganadas.
Entretanto, quando não sabemos mais reconhecer as qualidades, sejam técnicas ou estilísticas, ou quando podemos apresentar qualquer coisa, pois as novas e infindáveis reproduções que hoje circulam de Brecherets, Ceschiattis e Giorgis, são simplesmente qualquer coisa, é sinal que algo está errado. Deve-se compreender que a assinatura do artista – e esta é a prova final do nosso falso Giorgi, corrigida a talhadeira -  não é a prova maior de autenticidade, antes seria a emoção que dela emana e que precisaria ser conservada, ou mesmo ampliada, quando traduzida para o metal. Sem ela estamos diante apenas de sucatas, metal sim que poderiam ser negociados na balança.
Em minha opinião, estão mais próximas dos originais as virtuosas falsificações que confundem, por anos, especialistas, do que essas reproduções realizadas à toque de caixa e sob auspício de associações ou familiares endossados, cujas ações, parecem ser, de natureza mais comercial que cultural. O fato é que, mais cedo ou mais tarde, será um tiro no pé. Ao invés da desejada valorização, essas reproduções já trazem grande desconfiança do mercado e dos museus brasileiros.
Uma mudança deste cenário passaria também por aqueles que negociam arte, ao menos de uma parte dessa classe, aquela que menos necessita do dinheiro rápido ou que ainda mantém certo amor pela profissão. Sem eles o comprador ou mesmo o colecionador ficará sempre sujeito a cair neste tipo de armadilha e a não confiar em seu próprio senso crítico. Mais ainda, poderia ele valorizar enormemente o que possui de realmente original e contribuir para incutir nos novos artistas a percepção de que a qualidade ainda seria o diferencial, inclusive no preço.

Defendo aqui minha bandeira que é simplesmente uma regulamentação para o setor. Leis que impeçam essa avalanche de reproduções de má qualidade, a criação de condições para que as fundições se modernizem voltando a produzir com competência e, por fim, que se crie consciência de que esse é um problema real da arte brasileira.





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