terça-feira, 26 de outubro de 2010

CUIDANDO DOS PASSARINHOS






















Creio que inventei que meu avô morreu engasgado com uma espinha de peixe. Acreditei nisso por muito tempo, mas soube, recentemente, que sofria do coração. Inventei também que o estádio da Fonte Nova desabou. Na verdade ouve uma ameaça, um corre-corre, meus irmãos estavam lá dentro e Samuel chegou em casa com os joelhos ensangüentados. Talvez tenha ouvido falar que iria desabar e a imagem simplesmente grudou em minha mente ao ponto de poder quase jurar ter visto acontecer. Sempre pensei nisso e no cuidado com as espinhas de peixe.

Meu avô surge e escapa da minha memória como se não o visse entrar ou sair. Lembro-me de acordar certa vez pela manhã e encontrar chocolates sob o travesseiro. Fiquei de pé na cama e vi vovô lá em baixo, ao lado da banca de jornal, esperando um aceno meu. Lembro da expectativa de vê-lo naquele lugar, o que indica, talvez, que tenha feito isso outras vezes. Não recordo exatamente. A verdade é que lembro mais dos seus passarinhos do que dele. As cenas em minha memória em que ele, de fato, aparece, são pouquíssimas, o que me impressiona mais a respeito do que alimento por essas imagens. Sinto por ele uma ternura e identificação incríveis e hoje, como pai, são seguramente seu amor, caráter e atenção que mais imito.

Um comentário:

Eduardo P.L disse...

Eu tive um avô que criava passarinhos! Lembro, também mais dos viveiros, do que dele! Era meu padrinho. Quando morreu eu era muito pequeno! Mas com certeza esses pequenos gestos ( chocolate, acenos ) ficam para toda vida!