segunda-feira, 13 de julho de 2009

BRECHERET: UM ARTISTA E UMA CIDADE PARA SE AMAR

Poucos artistas modernos tiveram a formação de Victor Brecheret. Dominava perfeitamente a modelagem em argila, a talha na madeira e na pedra. Contou também com a colaboração de uma fundição em bronze, o antigo Liceu de Artes e Oficios, que se equiparava na época ao que de melhor existia em matéria de fundição artística no mundo. Por isso suas obras fundidas neste material possuem uma beleza extraordinária e conservam ainda hoje a vitalidade original.
Digo isto desde já em protesto contra o excesso de cópias de má qualidade que temos visto espalhadas por dezenas de galerias Brasil à fora. Obras que reproduzidas com ou sem autorização não refletem as qualidades que fizeram de Brecheret um Brecheret. Ora, muito mais do que uma assinatura, Brecheret é antes de tudo uma emoção inconfundível. Seu valor de mercado deveria refletir essa experiência. Ou ela existe (esta emoção) ou estamos diante de uma falsificação ou, na melhor das hipóteses, diante de uma má obra deste autor, o que em Brecheret não é fácil de encontrar, uma vez que foi artista de muita regularidade. Quem anda comprando essas novas cópias deveria se preocupar.
A obra de Vitor Brecheret é uma obra construída por uma grande inspiração aliada ao conhecimento do metië, que em seu caso beirava a ourivesaria. O acabamento em sua obra é parte essencial da expressão, pois nele se esmerava como poucos, buscando nos pequenos detalhes de mãos, pés, joelhos (mesmo quando estilizados) uma delicadeza que imprimi em nossa alma uma experiência só igual diante da natureza. Sua obra será sempre a de um grande artesão, mesmo quando recriava gestos e formas indígenas em seixos e pedras cuja "rusticidade" era extremamente precisa e verdadeira.
A escultura possui uma característica clara e peculiar. Ela se transforma sempre ao mínimo movimento do espectador. E isto ocorre basicamente de duas maneiras objetivas e distintas: no sentido de rodearmos a obra ou no sentido de ora nos aproximarmos ora nos afastarmos dela. No primeiro caso descobrimos o que o autor nos reserva de surpresas ou mesmo que deveríamos ficar única e exclusivamente no lugar onde estávamos, invariavelmente na frente da obra. Neste sentido Brecheret agiu de forma muito variada, ora barroco, criando uma nova obra a cada movimento nosso, ora clássico, frontal, linear e deliciosamente belo, ou ainda arcaico, monolítico e misterioso. Isso tudo nos fala o que comumente já se sabe: do indisfarçável ecletismo da arte moderna e, mais do que em qualquer outro artista, do ecletismo presente na obra de Victor Brecheret.
Porém, a relação que temos com suas esculturas, à medida que nos aproximamos ou nos afastamos, fala de uma outra coisa. É nesse momento que compreendemos outra qualidade importante e significativa da obra deste mestre. Ao nos aproximarmos de suas obras revelam-se universos de maravilhosas superfícies criadas através do detalhamento da forma que imprimem suavidade, precisão e elegância formal. Ao nos afastarmos percebemos o quão capaz foi este artista de criar formas monumentais novas, vitais, com extremo equilíbrio das massas e embebidas sempre de penetrante reflexão sobre a história da arte. Foi ele, justamente ele, artista tão meticuloso em detalhes e sutilezas, a quem coube realizar algumas das mais ousadas e bem sucedidas obras públicas do Brasil. Sua sensibilidade para o monumental contrasta com o refinamento de sua obra de "câmera", ou talvez, juntas, criaram algo tão velho quanto a própria arte, que é o desejo de criar em espaços públicos obras que reflitam o espírito do homem do seu tempo. E nesse caso e pelas mãos desse artista, um homem de grande força e ao mesmo tempo de incrível e generosa delicadeza, o seu retrato do homem brasileiro.
São Paulo teve a sorte de ter sido palco dos sonhos deste homem e dos políticos da época terem tido a sensibilidade de colaborar, ou ao menos de não atrapalhar o bastante. Aliás, nossa sorte poderia ter sido bem melhor, tivessem outros escultores, seus contemporâneos, permeado essa cidade com suas obras. Imaginem São Paulo povoado de Brunos Giorgis e De Fioris! Por sinal, poderiam trazer de volta para o centro da cidade o Emendabile, Monumento a Ramos de Azevedo, que foi para a USP, do qual foram feitas cópias para o ex-dono do Banco Santos (das figuras que ladeiam o cavalo), quando este, é claro, estava por cima. Estas obras, agora na Faria Lima, são também um testemunho da lamentável situação atual da fundição artística nacional. Quem tiver curiosidade deverá descer do carro e conferir com os próprios olhos.
Em fim, São Paulo precisa ficar mais bonita, não precisamos apenas de pontes e viadutos, não precisamos de uma vida prática e boa apenas para o trabalho. É preciso que seja boa pra se viver e, como diria meu amigo Enio Squeff, para vagabundar.
Vagabundar vendo obras de arte e lugares bem cuidados podem transformar uma pessoa, trazer um algo mais. Entre tantas, a lembrança de que as cidades foram feitas para serem amadas. E faz parte deste amor preservar a autenticidade das obras dos nossos artistas e trazê-las, as originais, o mais próximo possível da população.

3 comentários:

Eduardo P.L disse...

Ótimo texto. Parabéns! Essa é a nossa luta. E deveria ser de todos que gostam da boa arte!
Uma sugestão, coloque no sidebar a FERRAMENTA SEGUIDORES que vc tem nos gadget. Elas nos dirão toda vez que uma nova postagem for feita aqui. Vejo que tem muitas novas que não havia visto.
Forte abraço

Josy Mendonça disse...

Na Pinacoteca existem duas obras maravilhosas de Victor Brecheret: "Tocador de Guitarra" e "Moça Inclinada". Vale a pena ir lá e aproveite aprecie um espumante olhando o Parque da Luz! Josy Mendonça

Gregório Moreira disse...

Israel, parabéns pelo blog e pelos textos. Sempre que posso dou uma passada por aqui. Saudades do atelier.
Abs