segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

UM FALSO GIORGI e uma falsa arte brasileira em progressão

* Imagens no fim da postagem

A história merece uma introdução. A peça a qual me refiro pertence a uma família com potencial a se tornar colecionadora de obras de arte, uma vez que um dos lados, o da mãe, vem de família que coleciona. Ou seja, não são pessoas absolutamente inocentes quanto ao mercado de arte.
Certa feita, foram os recém casados a um leilão “idôneo”, me afirmam, e lá arremataram por uma cifra razoável, pouco mais que uma oportunidade, um Bruno Giorgi.
A partir de então esta obra ficou, tranquilamente, vivendo seus dias de sol e orgulho nos jardins da casa, até o momento de ser colocada em xeque. Houveram inicialmente alguns protestos, mas infelizmente as evidencias levam a crer que a obra, antes reverenciada como um exemplar de um dos maiores escultores brasileiros, seja uma fraude.
Não creio que seja difícil prová-lo, as imagens parecem depor mais do que as palavras. Porém, mesmo assim, vamos a elas.
Em primeiro lugar o estilo. É fácil ver que apesar de Giorgi ter usado algumas vezes poses similares – sua aluna Sonia Ebling o fez muito mais - o modo como a forma é tratada está longe de ter a sutileza que marcou a carreira do escultor. Mesmo nas suas mais ousadas estilizações, Bruno Giorgi nunca abandonou a formação que adquiriu ao lado de, nada mais nada menos, Aristides Maillol. Essa marca, ou melhor, essa sensibilidade elaborada e particular em relação a forma é, de fato, sua assinatura e o que, por fim, mais emociona.
A segunda prova estaria nos detalhes, fisionomia, mãos, barriga, mesmo umbigo.  Nenhumas dessas partes trazem características do autor, seja no sentido geral ou na execução e acabamento.
Comecemos pela cabeça. Se os olhos tentam imitar o estilo gráfico muitas vezes aplicado pelo mestre, a boca e nariz denunciam claramente a inexperiência do pseudo-escultor, uma tentativa banal de reproduzir o beiço e narinas de modo acadêmico. A própria fisionomia em nada lembra a mestiçagem imaginária Giorgiana tão carregada de tons indígenas e sutilezas de modelagem. A barriga não possui graça, ou mesmo não existe, sendo apenas marcada por um buraco que, em Giorgi, quando evocado, aparece sempre com os cuidados necessários para que pertença ao corpo, ou ainda, para que traga para si a atenção desejada, pois deve haver nele, o precioso umbigo, também algo de poético. Por fim as mãos, e a partir delas partimos para outro quesito não menos importante. Não sabemos exatamente a quem creditar tal barbeiragem, se ao autor, seja ele quem for, ou a fundição ou fundidor.
Existem sobre isso várias suposições. Por exemplo: a obra seria falsa de cabo a rabo, ou seja, modelada de má fé e fundida com fé ainda mais rasa. Percebe-se a má qualidade da fundição e talvez seja ela responsável por tornar algo que era sofrível em vergonhoso ou, acredito menos nessa hipótese, seria então uma obra original mal fundida. Talvez surja por ai a versão verdadeira e isso ajudaria muito a esclarecer nossa história. Por enquanto podemos afirmar apenas e seguramente que se trata de uma péssima reprodução. Pode-se concluir isso por três razões básicas. 1 - Os acabamentos dos dedos, sejam dos pés ou das mãos, são caracteristicamente conseqüência do retoque da cera. Quem trabalhou esses últimos 30 anos pelas fundições brasileiras reconhece facilmente esse, vamos chamar assim, caráter. 2 - A qualidade da fusão apresenta problemas de porosidades de diversas ordens, um fato recente que Giorgi não conheceu em vida, que poderia ser atribuída também a reproduções póstumas e legítimas - entraremos dessa questão mais adiante. Por enquanto basta saber que as irregularidades da superfície da obra causada por fervuras, inclusões e outros defeitos de fundição são inimigos da obra de arte, acabando por destruir a superfície da peça sem deixar rastro das mãos do autor. Em nosso caso uma parte desses problemas foram disfarçados com trabalhos com máquinas de abrasamento facilmente identificáveis. 3 - Por fim o metal, apesar de não ter realizado nenhuma análise metalográfica, creio poder afirmar que se trata de um latão bastante irregular. Ser latão não é exatamente o problema, há muito se trabalha com ligas com menos cobre e nem por isso se produziram obras de menor valor, mas neste caso o aspecto do metal causa péssima impressão.
Acreditando-se que o fundidor não estava em conúbio com um possível falsário, pode-se concluir simplesmente que este não possuía competência para reprodução da criação do autor, seja ele Giorgi ou não.
Porém, uma vez que a qualidade da fundição sabe-se, é menos culpa do fundidor brasileiro que de uma conjuntura de depreciação geral dos saberes artesanais ligados as Artes, antes chamadas Plásticas, agora Visuais e muito antes Belas Artes, pulo para a questão seguinte e que, me parece, é a mais intrigante. Como é possível que se vendam peças como esta?  - o que se faz com mais freqüência do que se imagina - e misteriosamente, como é possível que se comprem peças assim? A resposta para a segunda pergunta não é tão difícil. Onde não há informação as pessoas são facilmente enganadas.
Entretanto, quando não sabemos mais reconhecer as qualidades, sejam técnicas ou estilísticas, ou quando podemos apresentar qualquer coisa, pois as novas e infindáveis reproduções que hoje circulam de Brecherets, Ceschiattis e Giorgis, são simplesmente qualquer coisa, é sinal que algo está errado. Deve-se compreender que a assinatura do artista – e esta é a prova final do nosso falso Giorgi, corrigida a talhadeira -  não é a prova maior de autenticidade, antes seria a emoção que dela emana e que precisaria ser conservada, ou mesmo ampliada, quando traduzida para o metal. Sem ela estamos diante apenas de sucatas, metal sim que poderiam ser negociados na balança.
Em minha opinião, estão mais próximas dos originais as virtuosas falsificações que confundem, por anos, especialistas, do que essas reproduções realizadas à toque de caixa e sob auspício de associações ou familiares endossados, cujas ações, parecem ser, de natureza mais comercial que cultural. O fato é que, mais cedo ou mais tarde, será um tiro no pé. Ao invés da desejada valorização, essas reproduções já trazem grande desconfiança do mercado e dos museus brasileiros.
Uma mudança deste cenário passaria também por aqueles que negociam arte, ao menos de uma parte dessa classe, aquela que menos necessita do dinheiro rápido ou que ainda mantém certo amor pela profissão. Sem eles o comprador ou mesmo o colecionador ficará sempre sujeito a cair neste tipo de armadilha e a não confiar em seu próprio senso crítico. Mais ainda, poderia ele valorizar enormemente o que possui de realmente original e contribuir para incutir nos novos artistas a percepção de que a qualidade ainda seria o diferencial, inclusive no preço.

Defendo aqui minha bandeira que é simplesmente uma regulamentação para o setor. Leis que impeçam essa avalanche de reproduções de má qualidade, a criação de condições para que as fundições se modernizem voltando a produzir com competência e, por fim, que se crie consciência de que esse é um problema real da arte brasileira.





terça-feira, 29 de novembro de 2011

Informações sobre curso de FUNDIÇÃO ARTÍSTICA no SENAI

Em janeiro acontece o novo workshop de fundição artística do SENAI.
A novidade fica por conta do desenvolvimento dos refratários especiais para reprodução de obras de arte.
Como se sabe, a fundição é basicamente uma reprodução e o material que compõe o molde refratário, responsável por receber o metal líquido a mais de 1000 graus, é o ponto principal de todo processo.
O Centro Técnico em Fundição Artística SENAI desenvolveu neste último ano duas linhas de pesquisa em refratários: a primeira, diretamente ligada a indústria, que são os moldes chamados de "casca cerâmica" ou "fundição de precisão". São moldes cujo gesso tradicional é substituido por sílica coloidal e minerais, entre eles a zirconita e possibilitam, como o próprio nome do processo indica, grande fidelidade ao modelo original. Quanto ao processo tradicional, a base de gesso, encontramos no Brasil uma empresa, a Goldstar, filial de uma das maiores empresas do setor de refratários europeus e cuja matriz está na Inglaterra. Através desse contato foi possível desenvolver um produto nacional similar ao europeu destinado a fundição de esculturas e que estará disponível no mercado brasileiro contribuindo com a qualidade da reprodução nacional.


SEGUNDO WORKSHOP DE FUNDIÇÃO ARTÍSTICA SENAI

Acontece entre os dias 25 e 28 de janeiro de 2012 o II Workshop de Fundição Artística do SENAI. Esta oficina faz parte de uma série de atividades do CENTRO TÉCNICO EM FUNDIÇÃO ARTÍSTICA (ver informações abaixo) cuja missão é recuperar e implementar novas tecnologias a serviço da reprodução de obras de arte em metal.

O Workshop é direcionado a estudantes, técnicos em metalurgia, artistas, restauradores, empresários do setor e público em geral. O curso não exige conhecimentos anteriores de fundição ou arte.

Durante os quatro dias do workshop serão apresentadas, em aulas práticas e teóricas, todos os etapas que envolvem a fundição em metal de uma escultura, dos cuidados para moldagem do original à fusão dos metais e pátina da obra final.

Os processos serão apresentados por uma equipe especializada que buscaram na Europa informações sobre o que há de mais moderno utilizado pelo setor, se aproximando também das tradições seculares que mantêm vivas essas práticas.

São exemplos dessas referências o centro de fundição artística de Pietrasanta, na Toscana, onde são fundidas as obras de Francisco Botero e a fundição francesa Coubertin, responsável pelas novas reproduções de Rodin e Bourdelle. Durante o workshop serão apresentados estes centros e as técnicas aplicadas por cada uma delas.


ABERTURA DO CENTRO TÉCNICO EM FUNDIÇÃO ARTÍSTICA SENAI

Desde o final das atividades ligadas a fundição artística do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, nenhuma instituição brasileira investia na qualificação e modernização do setor. O SENAI, cuja missão se aproxima à antiga instituição possuía as condições técnicas e recursos humanos necessários. Foram realizados, nos últimos três anos, a capacitação de uma equipe técnica, investimentos em equipamentos e treinamento para apresentarem ao público os cursos especializados em fundição de obras de arte.
Em 2011 foram realizados os primeiros cursos abertos ao público, entre eles uma oficina exclusiva para alunos do curso Artes Visuais da ECA/USP.

Histórico

Existe oficialmente no Brasil cerca de quinze fundições artísticas. Seus proprietários são, em sua maioria, netos ou artesões que trabalharam com os imigrantes italianos no começo do séc. XX. Esses artesões chegaram ao Liceu de Artes e Ofícios tornando-o capaz de executar, com maestria, os principais monumentos de São Paulo. Alguns escultores também se tornaram importantes fundidores. Este é o caso de Amadeo Zani que, aos 27 anos, exercia o magistério no Liceu convidado pelo engenheiro-arquiteto Ramos de Azevedo. Na década de 30, inaugurou a própria fundição no Rio de janeiro vindo a se tornar, nas décadas seguintes, uma das mais importantes fundições comercial do Brasil. Na década de sessenta foi a Fundição Zani a responsável pela execução dos principais monumentos de Brasília.

A fundição artística hoje

De lá para cá a fundição artística brasileira perdeu mercado e a condição para se modernizar. As conseqüências destes problemas se refletem nas cidades, museus e ateliês. Da conservação das obras públicas e acervos museológicos à aplicação desta técnica de produção à arte contemporânea, a renovação destes conhecimentos pode inferir qualidade na vida cultural das cidades e promover a conservação de uma memória material e imaterial.

Público Alvo

O "Workshop" é um curso intensivo cujo objetivo é atender a sociedade de modo abrangente e por isso não exigem conhecimentos anteriores relativos à fundição artística ou de metais.

WORKSHOP

"FUNDIÇÃO ARTÍSTICA POR CERA PERDIDA"
De 25 a 28 de janeiro de 2012
De quarta a sábado, das 9 às 17h00.
Vagas limitadas a 20 participantes
Carga horária: 32 horas

Local:
SENAI - Escola Nadir Dias de Figueiredo
Rua Ari Barroso, 305, Presidente Altino, Osasco - SP
Para informações seguem os contatos:
11 3685.7980 / fundicao119@sp.senai.br
http://www.senai.br/
 

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Novo curso de FUNDIÇÃO ARTÍSTICA no SENAI

II WORKSHOP

"FUNDIÇÃO ARTÍSTICA POR CERA PERDIDA"

De 25 a 28 de janeiro de 2012
De quarta a sábado, das 9 às 17h00.
Vagas limitadas a 20 participantes
Carga horária: 32 horas

Local: SENAI - Escola Nadir Dias de Figueiredo
Rua Ari Barroso, 305, Presidente Altino, Osasco - SP

Para informações seguem os contatos:
11 3685.7980 / fundicao119@sp.senai.br
http://www.senai.br/

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

MUSAS IMPASSIVEIS 2


"A Musa impassível, de Victor Brecheret, é uma das maravilhosas esculturas que integram, desde 2006, o acervo da Pinacoteca do Estado, ao lado do Parque da Luz.
Por décadas, a Musa permaneceu “impassível” no Cemitério do Araçá, no túmulo da poetisa parnasiana Francisca Júlia da Silva, que faleceu em 1920", assim apresenta o flickr do Yahoo.

Lá, no túmulo da poetisa, foi colocada uma réplica em bronze.

Segue na postagem abaixo imagens das duas musas.

Se observarmos com calma perceberemos que a de metal acabou por ficar inclinada para trás, transformando o caráter hierático, uma expressão sacerdotal de acentuada majestade e rigidez, característica de muitas das importantes obras de Victor Brecheret, em certa pompa descabida. Em vez do colo como fonte principal de energia, a barriga se pronunciou para frente dando certa sensação de lordose ou desconforto. As linhas perfeitamente horizontais do pescoço e perfil - nariz e testa - foram jogadas para a diagonal, influindo decisivamente no aspecto formal da obra, algo também de imensa importância na estética de Brecheret.

Curiosamente, neste caso, a fundição conseguiu reproduzir bastante bem a superfície da obra, algo difícil para as condições técnicas brasileiras da fundição artistica na atualidade. O metal ainda possui uma porosidade importante, porém, uma vez que o próprio original perdeu boa parte da riqueza de detalhes, outra característica fundamental do autor, as novas perdas não parecem significativas.

Porém, para aqueles que vão visitar a obra no túmulo com o propósito de se aproximar de uma importante obra de um dos nossos maiores mestre da escultura e do modernismo brasileiros me parece que ficará certa dúvida sobre esse encontro. 

Ficam então algumas perguntas:

Encontrará lá o mistério e rigor formal comum ao grande escultor? Saberá ele compreender que essas perdas e deformações são “naturais” na reprodução de uma obra de arte? E são naturais? Saberá ele que é uma reprodução? Será que são aceitáveis essas alterações? Qual critério foi usado durante a realização da reprodução? De quem era a responsabilidade de acompanhar o processo de fundição da obra?
Afinal, a obra escultórica possui uma sintaxe feita de formas, volumes, linhas, contornos... são o modo e a feitura deste  jogo que fazem a qualidade do autor e ao alterá-las não se perde pouco. Assim sendo, o que essa nova peça representa no conjunto da obra de Victor Brecheretl? E ainda, o que significa essa questão em relação ao nosso patrimônio cultural?

MUSAS IMPASSIVEIS







terça-feira, 18 de outubro de 2011

EXPO FUNDIÇÃO ARTÍSTICA

Estou capitando recursos, via Lei Rouanet, para um projeto sobre a FUNDIÇÃO ARTÍSTICA BRASILEIRA.
Quem quiser conhecer o projeto segue o link:
 
www.fundicaoartistica.blogspot.com

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

AS OFICINAS EM SÃO PAULO CONTINUAM

Sempre as quartas, continuo recebendo artistas e estudantes com o objetivo de aperfeiçoar e trocar informações sobre o metier da escultura.
Da moldagem à fundição em bronze, da modelagem em argila ao desenho, os grupos tem acesso a informações técnicas, bibliografia e trabalho prático.
O ateliê possui forno para queima dos originais e durante o dia ocorrem sessões com modelo vivo para a prática de modelagem e desenho.

às quartas-feiras
das 09 as 12h ou 14 as 17h


informações
2609.9171
i.kislansky@ig.com.br
 Local: Rua Teodoro Sampaio, 855, 1B, Pinheiros - SP

terça-feira, 4 de outubro de 2011

ESCULTURAS PAULISTANAS








Fotografar as esculturas no centro de São Paulo não é tarefa fácil. Primeiro porque algumas praças, ao menos as duas que fui hoje, são banheiros públicos. Você deve fotografar com o maior cuidado para não pisar em m. e o cheiro também não ajuda. Depois a preocupação, suspeita pelos olhares e movimentações, de um possível assalto. O resto são os pinéis, cachorros e mesmo policiais que, infelizmente, não possuem olhares mais apaziguadores. Tirando tudo isso, a tarde foi ótima! As obras valem a pena e, a despeito do academicismo, possuem seu charme. Se o entorno ajudasse o paulistano seria bem mais feliz.

Fico pensando que estes monumentos deveriam ser tratados como os museus, com verba, administração própria e política de uso, no sentido de tornar esses espaços vivos. Possuímos obras realmente boas e TALVEZ, apenas, nossos netos aproveitem. Gostaria eu de fazê-lo!

A peça acima é uma homenagem a Alfredo Maia, não o conheço, desculpem, e está na frente da Sala São Paulo.

TOLERÂNCIA - Bahia e Judaísmo - 2ª parte

Somos identidades individuais muito complexas e não nego que nossa formação cultural faça parte dela. Porém, gostaria agora de fazer um esforço de imaginação e furar essas barreiras para estar simplesmente ao lado de alguém, seja ele quem for - judeu, baiano, negro, branco, amarelo ou ainda a mistura de alguns deles - e olhar a sua volta.
Estaremos então diante de alguém que ama, sofre, ri, chora, tem filhos ou não, teve pais, estuda ou trabalha. Este ente vive numa sociedade com justiças e injustiças e muitas vezes é atormentado pelas escolhas entre “verdades” e “mentiras”. Por fim, ele sonha, pondera e deseja. Basicamente qualquer um de nós, pois somos, afinal, apenas estes seres humanos, limitados, voluntariosos e, segundo nosso Machado de Assis, atraídos pela “quimera da felicidade”.
Lembrar que o outro sente e vive apenas como nós mesmos, independente das distância culturais e físicas, é sem dúvida o primeiro passo no sentido de encurtar as distâncias e amolecer certas barreiras que aparentemente separam os povos. Esse tipo de aproximação em direção ao indivíduo foi uma das recentes e maiores conquistas da humanidade – se pensarmos que 300 anos está logo alí. Um processo que acompanha as transformações do mundo desde o século XVIII, passando pelo fim das monarquias absolutas, pela revolução francesa, pela emancipação, primeiro da maioria e depois das minorias, pela revolução que significou a psicanálise ou mesmo a mini-saia. Todas elas trabalharam contra os pré-conceitos e ajudaram a ampliar a igualdade entre raças, sexos e classes sociais. A noção moderna de direito, por mais difícil que seja sua prática, nos faz crer, ao menos, que não andamos em vão.

Hoje percebemos claramente que os movimentos fascistas do princípio do séc. XX foram uma cruel resistência aos caminhos da liberdade. Não a toa pregaram a limpeza racial e bradaram firmemente contra a arte moderna. Mesmo agora, o radicalismo pulverizado mundo afora não representa mais que um grito desesperado de medo. Medo do erro, das transformações, medo das perdas, enfim, daquilo que é mais humano. Viver em liberdade implica em acertar e errar, mudar de caminho, duvidar, experimentar, ser responsável pelos seus atos e respeitar o outro que guia-se pelo seu próprio norte. Sem dúvida algo complexo, um aprendizado diário do qual levamos para o túmulo apenas a sensação da busca, pois somos e seremos sempre imperfeitos. O resultados dos esforços acumulados são conquistas que se abrem para todos e usufruimos delas sem o perceber. Para o obtuso, porém, será sempre mais fácil ordenar ou seguir ordens que lhes “assegurem a felicidade".

Aquele “indivíduo”, o outro, igual a nós mesmos, busca apenas um acerto de contas consigo mesmo. As vezes, tem acesso a caminhos que atendem a essa necessidade, as vezes, e infelizmente, se interpõe ao seu percurso verdades alheias.

Poderíamos também pensar as culturas como indivíduos.
Afinal, o que regem as relações entre as pessoas? Poderíamos viver isolados, um sem o outro? Não é justamente na troca que crescemos e nos realizamos? E ao fazê-lo, deixamos de ser nós mesmos? Existe relação entre dois indivíduos sem respeito e independência?
Se, como indivíduos, estivermos um pouco mais preparados para o contato com o outro, e todas as suas conseqüências, sairemos mais ricos dessa troca, e certamente diferentes.
O mesmo se dá em relação as culturas.

De qualquer modo estou seguro que ao transformar culturas em abismos que dividem e delimitam os povos comete-se um grande erro. Em primeiro lugar porque as culturas são, e sempre serão, permeáveis. Nunca existiu esta tal pureza e os exemplos salpicam mundo afora. A música judaica é inimaginável sem os ritmos árabes. O cristianismo possui uma matriz judaica. Os mitos africanos se misturaram de tal modo ao catolicismo que frequentemente se trocam os nomes dos santos pelos respectivos Orixás do Candomblé. O Brasil e a Bahia justamente encantam o mundo por essa permeabilidade, pois aqui nunca saberemos exatamente onde começa e termina a influência de tantas culturas e indivíduos.

domingo, 2 de outubro de 2011

TOLERÂNCIA - Bahia e Judaísmo - 1º parte



Nascer judeu na Bahia causa imediatamente certa perplexidade.
Algo parecido a uma piada pronta.
Mas de onde vem exatamente essa sensação?
São de fato duas informações carregadas de significados intensos e aparentemente antagônicas. A Bahia seria sinônimo de alegria, festa, liberdade, extroversão, corporeidade, música e afeto. O judaísmo, por mais que seja uma cultura permeada de atributos semelhantes, parece se opor imediatamente a todas elas, tal como água e azeite, que se repelem ao menor contato. Logo, ao pensarmos o judaísmo, ao lado da baianidade, somos levados a visualizar um judeu triste, cinzento, carrancudo ou avarento.
Para acabarmos com essa ilusão, e podermos avançar em relação ao chiste, bastaria dizer apenas que existem muitos baianos tristes, aborrecidos e certamente avarentos. Digamos melhor: por trás dos vernizes das culturas existem, por fim e ao cabo, toda fauna humana, e em cada povo ou nação hão de haver sempre a mesma galeria de virtudes e defeitos presentes pelos quatro cantos da terra. Ou seja, entre judeus, católicos, muçulmanos ou iorubás existe gente honesta, feliz e extrovertida e ao lado destes - como não deveria causar estranheza - os desonestos, tristes e introvertidos.
Podemos dizer também que influem sobre estes estereótipos certa realidade factual vinda de episódios e mesmo de locais muito específicos.
Boa parte da imagem judaica vem de certa experiência acumulada por séculos de perseguição e pobreza, muito ligada ao leste europeu, onde contribui para compor a estética do quadro um frio intenso e a escuridão dos trajes. Sinto talvez que pareça superficial atribuir as imagens a percepção sobre um povo, mas o que fazer se os olhos têm sua lógica? A Bahia, por exemplo, vive do mito da felicidade e boa parte dessa percepção vem do sol, do céu azul, da natureza exuberante, da miscigenação racial e do carnaval.
Devemos pensar ainda que coladas a essas imagens estão, pelo lado judaico, um histórico, bastante disseminado, de riqueza vinda através de um suposto comprometimento “burguês” e, para finalizar, a negação ao cristianismo, mais especificamente ao Cristo. Do lado baiano junta-se as imagens solares certo hábito festivo ligado às origens portuguesas, mas principalmente africanas, e daí também a idéia de sensualidade associada aos povos "primitivos” da mãe África.
Inverter a lógica não me parece muito difícil, desde que estejamos atentos a realidade, que é sempre mais complexa que a fotografia na parede. Porém, não devemos também subestimá-las, pois, além das verdades que estas possuem, agem como espécie de auto-referência para nossas identidades. Digamos apenas que ao conhecermos pessoalmente esses "personagens” ampliamos nossa percepção sobre o “sujeito” e começamos a enxergar um universo mais amplo que poderá, para surpresa geral, nos levar a um único homem.
Ao chegarmos mais perto, conheceremos, em primeiro lugar, uma Bahia diferente daquela imaginada, onde a miscigenação não foi capaz de diluir o preconceito racial, este ligado a uma tradição coronelista arraigada, cujas transformações sociais das últimas décadas, infelizmente, só ampliaram o abismo entre ricos e pobres. E então, muitas vezes, ao andarmos pelas ruas da Cidade Baixa, somos hoje surpreendidos por uma nítida sensação de apartheit. Dito assim, de modo tão direto, pode soar tão estranho quanto afirmar que o judaísmo é uma cultura que celebra a alegria e que os judeus, de um modo geral, estão muito mais envolvidos com as artes e a ciência do que com especulação financeira. E mais, que ainda hoje, entre judeus, existem pobres.

Estamos agora diante de um novo quadro, na realidade o negativo daquela fotografia e, como tal, mal reconhecemos a imagem.
Afinal, haveria uma certa?
Mesmo aqueles que se interessam em investigar a realidade não deixariam de rir da piada. E nesse sentido poderíamos dizer que as duas percepções estão certas e erradas. As imagens iniciais, aquelas que nos fazem rir, possuem sim sua carga de verdade e o oposto, por incrível que pareça, também.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Voltando ao trabalho...

Tenho três peças que preciso terminar até o final de ano, uma delas é a de cima cujo garotinho é meu filho Igor...

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

OBRIGADO.

Ontem encerramos a mostra da Caixa. Hoje, na desmontagem, já dividiremos as coisas. Uma parte vai para Piracicaba, onde parte da mostra será reapresentada, outra volta para os seus donos e algumas fotos serão alteradas por monumentos baianos que serão apresentadas em outubro, no restaurante Soteropolitano, em SP. E, por fim, algumas peças vão pro depósito, aguardarem outro convite. 
Obrigado a todos pelo carinho com a exposição e conosco q trabalhamos nela, curador, comunicação, monitores e a Caixa.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

INFORMAÇÕES SOBRE OFICINA EM SALVADOR - SETEMBRO 2011

OFICINA DE ESCULTURA
com  Israel Kislansky

Dias 23 e 24 de setembro
Sexta, das 20 as 22h

Palestra
A FUNDIÇÃO ARTÍSTICA NO BRASIL
Dias 23 setembro
Sexta, das 20 as 22h

Topicos:
A fundição em metal de obras de arte no Brasil;
A técnica da fundição artística por cera perdida;
A fundição artística européia na atualidade;
Monumentos e escultores brasileiros.

 

Prática
A MODELAGEM DO CORPO HUMANO
Dia 24 setembro
Sábado, das 09 as 13h e das 14 as 18h

Topicos:
Técnica de modegem em argila;
Cabeça e torso.


Informações e inscrições:
(71)  8714.7604
kislansk8@hotmail.com
Local:
Rua São Paulo, 682, 2º andar
Pituba, Salvador - Ba

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Por Fernando Rios, após uma visita a Exposição, seguida de parada ocasional em boteco na Praça da Sé, numa terça feira, às seis da tarde, para degustação de costelas de boi regada a uma boa cachaça...


ISRAEL KISLANSKY
ESCULTURAS PARA SEREM ESCULPIDAS PELO OLHAR

kislansky é um judeu baiano.
ou um baiano judeu.
ou nem uma coisa nem outra.
também é um brasileiro com cara de europeu. ou não. ou um europeu com cara de brasileiro.
(afinal de contas, qual é a cara do brasileiro?)
(pode ter a cara de kislansky, brasileiro de corpo e alma.)

há muito tempo, kislansky tomou a si a mesma tarefa divina
(mas sem a intermediação da costela)
de transformar barros em seres humanos homens e mulheres
à imagem e semelhança de deus brasileiro
e baiano e multifacial e multicorporal e multirracial

e de tantos e tantos transformares
ele transformou o barro em gente
e gente em bronze

e kislansky apregoava caladamente que ali estavam suas criações

aquelas, de antes, se apresentavam na íntegra, figuradas, e diziam e continuam dizendo que são aquilo que são

naquele tempo, kislansky era objetivo,
plasticamente objetivo,
poeticamente objetivo,
nas expressões, nos gestos que suas mãos moldavam e registravam

aqueles homens eram solidamente ternos, leves, sensuais
aquelas mulheres eram solidamente ternas, leves, sensuais
aquelas figuras humanas continuavam a ser
em frente dos olhares que as perscrutavam.
ternas, leves, sensuais.

elas diziam a que vieram
elas eram aquilo que diziam ser

agora, kislansky abandonou seu ar divino.
ele pode ter dito:
- deus que se dane em mim. eu que me dane em deus!

e então foi novamente ao barro e criou figuras
figuras matizadas, coloridas
figuras colorindo-se

agora, são quaisquer figuras
lembram e remetem para humanas figuras
à espera de serem recriadas pelos olhos dos transeuntes.

as novas figuras de kislansky não existem nelas mesmas
elas existem e querem existir na emoção de cada olhar emocionante
e emocionado.
elas insistem em existir na poesia que deixam escorrer
e encontra um olhar atento e sensível

elas são criaturas em criação
e permitem serem recriadas pelos olhos

e quando as vemos,
em cada tempo seguinte,
temos a certeza de que não são mais as mesmas

agora, as criaturas são e estão sempre à espera e diante de um criador
não são mais criaturas de kislansky
ele criou-as livrearbitrariamente
e, como melhor criador ainda, despossuiu-se delas

elas são propriedades de quem as vê e as recria
e serão sempre recriaturas diante de recriadores

agora, kislansky se despiu de sua divindade
e a oferece às pessoas para que elas,
divinamente,
passem a criar, a possuir e a despossuir aquelas poéticas figuras
que se esfumaçam e se concretizam
e se esfumaçam e se concretizam
e se esfumaçam e se concretizam
diante de cada novo olhar


e então,
transcendentalmente,
desmisteriosamente,
poeticamente,
figuras
seres
seres humanos, talvez,
criaturas, sim,
enigmas que se propõem
devidamente recriados,
caminham para onde...
desfilam diante de kislansky,
o criador


fernado rios,
são paulo, agosto, 2011.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

OFICINA DE ESCULTURA

Sempre as quartas, estarei recebendo artistas e estudantes com o objetivo de aperfeiçoar e trocar informações sobre o metier da escultura.
Da moldagem à fundição em bronze, da modelagem em argila ao desenho, os grupos terão acesso a informações técnicas, bibliografia e trabalho prático.
O ateliê possui forno para queima dos originais e equipamento para entalhes manuais.
Durante o dia ocorrem sessões com modelo vivo para a prática de modelagem e desenho.

às quartas-feiras
das 09 as 12h ou 14 as 17h


informações
2609.9171
i.kislansky@ig.com.br
 Local: Rua Teodoro Sampaio, 855, 1B, Pinheiros - SP

terça-feira, 12 de julho de 2011

MARAGOJIPINHO







Estive lá recentemente para fazer as fotos para a exposição A COR DO CORPO.
Pegamos o barco no Mercado Modelo, em Salvador, eu, meu filho Igor e Lucas, meu sobrinho, e chegamos em Mar Grande, Itaparica. De lá, de carro, levamos cerca de 50 minutos para voltar ao continente, já no Reconcavo Baiano, e chegar a Maragojipinho, passando por Nazaré das Farinhas.
Isso mesmo, mandioca e argila não faltam na região - e peixe evidentemente. Não falta muita coisa, é um lugar abençoado, mas paradoxalmente pobre. Mais uma façanha brasileira.
A argila por lá é terra mesmo. Se encontra assim, no meio da rua, na estrada. Está pronta. É só misturar um pouco de água, ou se estiver com preguiça esperar chover, pegar um bocadinho e fazer o que quiser. Gostaria de ficar lá um tempinho. Quem sabe um dia.

domingo, 10 de julho de 2011

OBRIGADO.

Obrigado ao Gilberto Habib, a Sylvia Leite, Antonio Carmo, Paulo Esteves, Priscila Corbo e todos que trabalharam na montagem da exposição e um obrigado especial ao meu amigo Newton Santana por ter me cedido o espaço para produzir as últimas obras. A exposição está pronta e segue a partir de hoje sua breve jornada de dois meses.
Haverão atividades educatrivas e visitas guiadas. Será também um prazer acompanhar os amigos pessoalmente.
Nos falamos.
Abs, ik

terça-feira, 5 de julho de 2011

E as peças ainda estão no forno

Prezados amigos! A essa hora dois fornos ainda queimam esculturas para a mostra de sábado. O catálogo está sendo impresso e a exposição ainda é uma série de rabiscos do Gilberto. A partir de quinta-feira começará certamente uma tensão de véspera de espetáculo, muita apreensão e um prazer inigualável. Esculturas, painéis, suportes, iluminação, cenários... tudo para que o público receba seu quinhão de emoções. É a hora do artista fazer sua função.

Preparei um pequeno texto, a terceira postagem abaixo, que, acredito, simbolizam o espírito desta mostra. Serve como aperitivo. Aguardo vocês na hora que subir a cortina.
Um grande abraço, ik

quinta-feira, 30 de junho de 2011

EXPOSIÇÕES


Nos próximos dois finais de semana estarei inaugurando mostras em São Paulo.
Neste sábado, dia 02, participo de uma coletiva de desenhos na Galeria AVA, na Vila Madalena e dia 09, no outro sábado, acontecerá a vernissage da minha exposição individual na CAIXA Cultural da Sé.
Na CAIXA Cultural apresentarei a mostra A COR DO CORPO.
São cerâmicas e fotografias que tratam das incríveis possibilidades da argila. As peças são apresentadas em suas cores naturais ou esmaltadas, onde contei com a ajuda de ceramistas que gentilmente cederam-me fórmulas e seus fornos para as experiências com as cores.
Depois de minha passagem pelo SENAI, com o projeto para o Centro Técnico em Fundição Artística, meu olha nunca mais foi o mesmo em relação aos meios que dispomos. Fui, de certo modo, mordido pelo bichinho da ciência e é um pouco desse aspecto que apresento junto das obras.
Ao tentar esclarecer o que é a argila ou o porque das cores me vi surpreendido pela ampliação do mistério e fascínio pelas transformações da matéria.
Convido a todos para esses encontros com o desenho e o barro nos quais estarei lá para recebê-los carinhosamente.

Um grande abraço,
Israel Kislansky

EXPO 5X1
Galeria AVA
Rua Mateus Grou, 513A, Vila Madalena
Vernissage, dia 2 de julho das 11 às 17h

A COR DO CORPO
CAIXA Cultural São Paulo
Praça de Sé, 111, Centro
Vernissage, dia 9 de julho as 11h

domingo, 26 de junho de 2011

E DO BARRO SE FEZ TUDO


Certa vez me aconselhou a gravadora e aquarelista Iole di Natale a procurar minha cor subjetiva. 
Seria curioso esse tipo de classificação para um fenômeno físico, não fosse o fato da própria realidade objetiva da cor possuir certa poesia, uma vez que tudo se passa relacionado a capacidade da matéria em dar e receber íons e, por fim, dos cristais, capazes de refletir e absorver cor, que se formam deste conúbio. 
De fato meu caminho em direção à cor surgiu basicamente em torno de um desejo e consequentemente de um prazer. O prazer exclusivo proporcionado pela energia que emana de certas cores e que é difícil de explicar.
Afinal, por que o azul? Por que aquele azul e não outro? Por que aquele que detesto agrada tanto à alguns? Por que vibro, gozo, por que não me canso de olhar para aquele azul?
São razões, sem dúvida, subjetivas. 
O artista é  movido quase que exclusivamente por razões similares e nenhuma outro meio de expressão é tão cativante quanto a cerâmica, quando o assunto é cor.
Em primeiro lugar, pela incerteza. A cor na cerâmica, fruto de transformações criadas pelo calor, nos prega tantas surpresas quanto mais seguros estamos. Abrir um forno é, e sempre será, uma emoção, inclusive para os mais experientes. 
Logo, aquela cor criada é sempre, de algum modo, fruto de uma certa casualidade. Um pouco mais de óxido de ferro numa simples terracota a tornará mais avermelhada do que o esperado. Nos fornos a gás, cada parte interna do forno poderá aquecer de modo diferente fazendo o esmalte trabalhar mais ou menos do que o planejado. Sem falar das técnicas artesanais, como o rakú ou queimas à lenha, onde os resultados serão sempre uma incógnita. 
Olhamos para essas peças recém saídas dos fornos com uma curiosidade de quem procura a beleza. Seremos sempre surpreendidos por algo novo.
Em segundo lugar não se deve esquecer a qualidade dessa cor. Como sabemos, a cor é  a capacidade da matéria de absorver certos raios de luz e refletir outros. Justamente o que não é refletido, mas absorvido, é o que vemos. Será a "força" da geografia e energia molecular de cada matéria a responsável pela qualidade dessa cor.
Na cerâmica, a cor é o resultado das transformações/combinações dos minerais que compõem as massas cerâmicas e esmaltes, por intermédio do calor, e cuja cristalização cria um resultado extremamente estável e durável. Por isso encontramos hoje, nos museus ao redor do mundo, antigas cerâmicas egípcias, chinesas, gregas e seus esmaltes e engobes em prefeito estado, por vezes em cores vivas e vitrificadas, muitas delas com mais de 4.000 anos de idade. 
Podemos compreender melhor essa questão se compararmos essas cores às pigmentações e tintas sintéticas feitas na atualidade, a partir do petróleo, cuja constituição molecular é complexa e frágil. Esses corantes são compostos por cristais facilmente suscetíveis ao rompimento e produzem em pouco tempo o comum e triste desbotamento. Em cerâmica, ao contrario, se produz a cor utilizando os cobaltos, cadmios, lítios, cobres e tantos outros minerais puros, ou casados entre si, compostos com fundentes e vidrados. Após a queima, restam apenas sólidos cristais de cores.
Há ainda o fascínio da terra. As cores naturais proporcionadas pelas variedades de argila são passíveis de todos os tipos de adjetivos. São ternas, quentes, mesmo as brancas, são convidativas ao toque e nos remetem novamente a um mundo subjetivo: o amor ao chão, o prazer de andar descalço sobre a terra molhada, o barro, a lama e o corpo.
Por fim, o corpo. O corpo feito dessa substância, pois, como se sabe, “do barro se fez o homem”. Esse corpo que volta à terra. A terra que é feita de rochas, que são minerais, que são matéria inorgânica. 
Essa matéria "sem vida” é também responsável por ela, pois a maior parte da vida orgânica se alimenta do solo, de sua capacidade de armazenar sais e gerar vida.


Esta terra que nos recebe e nos alimenta também nos oferece a si própria como matéria moldável. Foi com ela que aprendemos a fazer potes, jarras, pratos, brinquedos, máscaras, enfeites... com ela nos divertimos e sonhamos. 
E assim chegamos ao âmago do homem, sua alma, que transforma por fim esta matéria inorgânica em magia e arte. 
Esse ciclo faz pensar no singelo e simples barro, em sua imensa colaboração, no plano prático e anímico, para nossa civilização. Sem dúvida, um patrimônio que, talvez, pela abundância e modéstia, não seja mais frequentemente lembrada, mas que cabe aqui ressaltar.
Podemos dizer que do barro se fez tudo, uma vez que com ele se fez o útil e o imaginário.