Os
primeiros anos profissionais são sempre de poucos recursos e, por outro lado, a
opção pela figuração implicou em bastante tempo até que uma linguagem mais
pessoal despontasse. Desse modo, apenas a partir de 1998 iniciei gradativamente
a fundir novamente. Como é um processo caro, financiava as fundições com trocas,
empréstimos bancários e todo tipo de acrobacia em busca de dinheiro. Busquei
caminhos menos onerosos, porém minha modelagem exigia grandes formatos, que não
se adaptavam a cerâmica. Mesmo as tentativas com pedra e madeira não
entusiasmaram. Creio que nasci para a argila. É a matéria que mais corresponde
ao meu caráter e onde tudo flui naturalmente. O bronze, de certo modo, é seu
oposto. Indócil e frio, foi uma aproximação cheia de amor e ódio.
Houve um
episodio particularmente doloroso e importante que marcou o começo de uma
relação dúbia e complicada com a fundição artística e que envolveu uma grande
escultura. Estava começando uma serie de trios e surgiu a oportunidade de
realizar um deles de maiores proporções. Havia um projeto para a criação de um
parque de esculturas no Palácio dos Bandeirantes. Houve uma seleção e minha
proposta foi aceita. A escultura representava três figuras femininas sentadas,
maiores que o tamanho natural que juntas mediam cerca de 3 metros de
cumprimento. Modelei durante todo um ano. Recebi, por fim, um sinal e começamos
a moldagem da obra. Logo no começo dos trabalhos chegou a noticia do
cancelamento do projeto do parque. Agora, se desejasse seguir em frente deveria
custear a conclusão do trabalho. Decidi fazê-lo. Porém, era minha primeira
escultura deste porte e não tinha qualquer experiência anterior que me alertasse
sobre os problemas que poderiam surgir. Resumo da história. Depois de mais um
ano dedicado a sua fundição, os quais paguei com infinitos cursos dados pelo
interior de São Paulo, a escultura em bronze era uma tosca lembrança do que
havia modelado. De tal modo aquilo fugiu do que havia criado com tanto amor e
empenho que poucos anos depois a obra que pesava cerca de uma tonelada foi
picotada e vendida como sucata! Foi uma dura lição.
Em 2000 surgiu a primeira
Vanackeriana, nome dado em homenagem ao Van Acker. Estava mais preparado para
enfrentar a fundição. Percebi que os recursos disponíveis nas empresas que
prestavam esse tipo de serviço não garantiam o resultado que esperava e me
cerquei de cuidados para chegar mais próximo ao que desejava. Fiz anotações de
todo o tipo que garantiram a montagem das partes em cera e criei uma serie de
exigências que fizeram a obra, menor que anterior, levar mais um ano para sair
da fundição, sendo necessário muitas vezes refazer partes inteiras até alcançar
um resultado aceitável. Dali em diante fundi constantemente até 2005, formando o
grupo de obras que estão publicadas no livro “Kislansky – Eterno e moderno”,
pela editora San Floro.
Esses cinco anos foram especialmente felizes. Modelei e
desenhei muito. Sentia que a obra amadurecia. A constância nesses cinco anos de
fundição também me proporcionaram mais consciência dos limites e desafios da
fundição brasileira e os resultados, apesar das enormes dificuldades, já
correspondiam em parte ao que almejava como artista.
