sexta-feira, 31 de julho de 2026

MINHA HISTÓRIA COM A ESCULTURA E A FUNDIÇÃO ARTÍSTICA - CAP. 01: OS PRIMEIROS ANOS, 1989 A 2005

Em 1989, um anos depois de me formar em Artes Visuais pela Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, comecei a estudar escultura com Jose Antônio Van Acker. Foi um começo involuntário. Estava envolvido com a pintura e fazia formação com ele. Depois de alguns anos de estudo, Van Acker literalmente exigiu que eu trabalhasse com argila. Tinha 24 anos e não pretendia abandonar os pinceis. Quis o destino que tudo acontecesse de outra forma e poucos anos depois já me dedicava exclusivamente a escultura e a fundição em metal. Como ele próprio fundia suas peças, naturalmente fui orientado a experimentar esse processo e um ano depois levava minhas primeiras esculturas para a extinta Fundição Rebelatto, na Rua Francisco Leitão, em Pinheiros, ao lado do Cemitério São Paulo. Na época, não tinha ideia de que se tratava de um dos últimos redutos da histórica herança do Liceu de Artes e Ofícios, onde ainda trabalhavam velhos artesãos com técnicas e hábitos de outros tempos e no que tudo isso implicaria para mim muitos anos depois. 
Os primeiros anos profissionais são sempre de poucos recursos e, por outro lado, a opção pela figuração implicou em bastante tempo até que uma linguagem mais pessoal despontasse. Desse modo, apenas a partir de 1998 iniciei gradativamente a fundir novamente. Como é um processo caro, financiava as fundições com trocas, empréstimos bancários e todo tipo de acrobacia em busca de dinheiro. Busquei caminhos menos onerosos, porém minha modelagem exigia grandes formatos, que não se adaptavam a cerâmica. Mesmo as tentativas com pedra e madeira não entusiasmaram. Creio que nasci para a argila. É a matéria que mais corresponde ao meu caráter e onde tudo flui naturalmente. O bronze, de certo modo, é seu oposto. Indócil e frio, foi uma aproximação cheia de amor e ódio. 
Houve um episodio particularmente doloroso e importante que marcou o começo de uma relação dúbia e complicada com a fundição artística e que envolveu uma grande escultura. Estava começando uma serie de trios e surgiu a oportunidade de realizar um deles de maiores proporções. Havia um projeto para a criação de um parque de esculturas no Palácio dos Bandeirantes. Houve uma seleção e minha proposta foi aceita. A escultura representava três figuras femininas sentadas, maiores que o tamanho natural que juntas mediam cerca de 3 metros de cumprimento. Modelei durante todo um ano. Recebi, por fim, um sinal e começamos a moldagem da obra. Logo no começo dos trabalhos chegou a noticia do cancelamento do projeto do parque. Agora, se desejasse seguir em frente deveria custear a conclusão do trabalho. Decidi fazê-lo. Porém, era minha primeira escultura deste porte e não tinha qualquer experiência anterior que me alertasse sobre os problemas que poderiam surgir. Resumo da história. Depois de mais um ano dedicado a sua fundição, os quais paguei com infinitos cursos dados pelo interior de São Paulo, a escultura em bronze era uma tosca lembrança do que havia modelado. De tal modo aquilo fugiu do que havia criado com tanto amor e empenho que poucos anos depois a obra que pesava cerca de uma tonelada foi picotada e vendida como sucata! Foi uma dura lição. 
Em 2000 surgiu a primeira Vanackeriana, nome dado em homenagem ao Van Acker. Estava mais preparado para enfrentar a fundição. Percebi que os recursos disponíveis nas empresas que prestavam esse tipo de serviço não garantiam o resultado que esperava e me cerquei de cuidados para chegar mais próximo ao que desejava. Fiz anotações de todo o tipo que garantiram a montagem das partes em cera e criei uma serie de exigências que fizeram a obra, menor que anterior, levar mais um ano para sair da fundição, sendo necessário muitas vezes refazer partes inteiras até alcançar um resultado aceitável. Dali em diante fundi constantemente até 2005, formando o grupo de obras que estão publicadas no livro “Kislansky – Eterno e moderno”, pela editora San Floro. 
Esses cinco anos foram especialmente felizes. Modelei e desenhei muito. Sentia que a obra amadurecia. A constância nesses cinco anos de fundição também me proporcionaram mais consciência dos limites e desafios da fundição brasileira e os resultados, apesar das enormes dificuldades, já correspondiam em parte ao que almejava como artista.

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